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06 Oct 2015

São João no Porto: a noite mais longa

Vox Orbis / 06 Oct 2015 Celebrations

Foto: A Avenida dos Aliados, no Porto, à noite. Dani De La Cuesta/Flickr

Língua: inglesa (English)

António Rufino

23 de Junho no Porto, nove horas e ainda é dia. O reflexo dos últimos raios solares doura os telhados e as ruas, de todo o lado ouço brotar alegres conversas de que sempre ressoa a mesma frase: é São João. À medida que a noite cai, sinto essa alegria ganhar existência física, tornar-se martelos coloridos de plástico com que se faz pontaria às cabeças desprevenidas em redor, pequenos balões de ar quente que se oferece aos céus, sardinhas grelhadas e comidas em plena rua. Ao que os Celtas chamavam Beltane os portuenses chamam “o meu rico São João”, o mais popular dos santos populares. Pouco interessa se cristão ou pagão, apenas importa celebrar, fundir o dia mais longo com a noite mais longa, esta que está agora a começar.

Foto: A zona da Ribeira espalha-se ao longo do rio Douro, no Porto. Durante a noite de São João, as ruas enchem-se de gente. Andrea Ciambra/Flickr

Meia-noite: tudo pára. Olho para o céu, para o fogo-de-artifício, flores, árvores, cascatas, feéricas formas que pairam por segundos sobre o rio antes de se desvanecerem. As ruas estão cheias de gente, toda a gente, desde idosos que mal se mexem a bebés de colo, até turistas que não sabem o que lhes está a passar por cima mas se juntam à festa: em Roma sê romano, e no Porto isso significa sair à rua nesta noite como se não houvesse amanhã, e descobrir que não há amanhã.

Foto: Vista nocturna da Ribeira, na zona histórica do Porto, nas margens do rio Douro. Benurs/Flickr

O céu cala-se, o tempo deixa de existir: pergunto-me se rumo aos Aliados, desço à Ribeira ou procuro um dos muitos bailes populares. Decido melhor: vou de festa em festa, dançando sempre, caminhando sempre, dando e recebendo marteladas até chegar à Foz e a manhã clarear. Então, só então, sinto o tempo existir novamente e o cansaço no corpo que me faz sorrir durante o regresso a casa: foi tão boa, tão mágica esta noite de São João. Venha a próxima.


António Rufino para Vox Orbis, 2015